Importadores assinam carta de interesse e serão os primeiros a pilotar o padrão de certificação Beef on Track (BoT), que assegura conformidade socioambiental na bovinocultura de corte brasileira.
Tianjin é uma importante cidade portuária chinesa. Fica a menos de três horas de Pequim e é porta de entrada para parcela significativa da carne bovina brasileira importada pela China – principal destino das exportações do setor, absorvendo mais de 47% do volume vendido, segundo dados do Beef Report 2026, da Abiec. A partir de agora, Tianjin será também protagonista do projeto piloto de implementação da certificação Beef on Track (BoT), a primeira a atestar o monitoramento e a conformidade socioambiental da carne bovina brasileira.
“Hoje (3/6), assinamos com a Tianjin Meat Association (TMA) a carta que dá início à parceria para testar a certificação BoT na China. Avançamos ainda na negociação com uma auditoria chinesa, chamada Chinese Quality Mark Certification Group (CQM), responsável pela verificação da cadeia de custódia dos produtos passíveis de certificação”, explica Marina Guyot, diretora de Clima e Desmatamento Zero do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), criador do selo BoT, um sistema de certificação internacional baseado na experiência brasileira e lançado em outubro do ano passado.
“Utilizando o desenvolvimento verde e sustentável como ponte, buscamos aprofundar a cooperação entre as indústrias de carne da China e do Brasil. Da logística da cadeia de suprimento refrigerada ao acesso ao mercado, dos padrões de qualidade aos canais comerciais, cada interação reflete nosso compromisso compartilhado de viabilizar a circulação bidirecional de produtos cárneos de alta qualidade”, declarou Xing Yanling, presidente da TMA.
Afirmando que a proteção ambiental não conhece fronteiras, ela fez um apelo a que os dois países trabalhem juntos para alcançar uma carne bovina rastreável, livre de desmatamento, verde e sustentável: “Como importante polo de importação de commodities brasileiras, Tianjin está aproveitando sua posição na cadeia produtiva para promover a cooperação mutuamente benéfica entre os dois países no setor de comércio de proteína animal. Esperamos que essa parceria, que abrange os hemisférios Norte e Sul, produza resultados ainda mais frutíferos à mesa”, disse ela.
A formalização do acordo aconteceu durante a Tianjin International Shipping Industry Expo (a 4ª Exposição Internacional de Transporte Marítimo), evento voltado à logística portuária, no qual a importação de carne se insere. Outros oito importadores de carne bovina também foram signatários dessa carta de interesse. A saber: PICC Property and Casualty Company Limited – Tianjin Branch; CAWM (Tianjin) Cold Chain Logistics Co., Ltd.; TedaHang (Tianjin) Cold Chain Logistics Co., Ltd.; ADP International Logistics Group; Yinkai International Freight Agency (Tianjin) Co., Ltd.; Shunfeng Wagyu (Tianjin) International Trade Co., Ltd.; Tianjin Xinjian Food Trade Co., Ltd.; e Zhonggong Huamu (Tianjin) Food Co., Ltd.
A Feira de Tianjin
A TISIE 2026 é realizada entre os dias 2 e 5 de junho no National Convention and Exhibition Center, o maior complexo de exposições da China. Em sua quarta edição, o evento reúne mais de 400 empresas de 20 países em uma área de 50 mil metros quadrados, distribuída em quatro pavilhões temáticos que cobrem desde portos internacionais e armadores até freight forwarding e cadeia de suprimentos logísticos. A programação inclui fóruns especializados como o International Meat Trade & Shipping Trends Summit, que conecta diretamente os elos do comércio global de proteína animal à infraestrutura portuária.
A escolha de Tianjin como sede do projeto piloto do BoT se beneficia diretamente dessa infraestrutura. A cidade conta com 93 instalações de armazenamento refrigerado, com capacidade total de 2,3 milhões de toneladas, e movimenta anualmente mais de 1 milhão de toneladas de produtos importados via cadeia de suprimento refrigerada. Esse complexo logístico abastece 60% do consumo premium de Pequim e 40% da província de Hebei, posicionando Tianjin como o principal hub de distribuição de carne importada no norte da China.
Na visita ao país, o Imaflora deu outro passo importante para a disseminação do selo BoT junto a compradores chineses, como Dahe Holding Group, com uma apresentação do sistema de certificação a importadores da província de Henan, um dos principais hubs de distribuição de carne no país, igualmente interessados em adotar o selo BoT. “É uma oportunidade interessante para a carne brasileira, que agrega valor ao carregar também informação socioambiental. Esse produto pode ganhar notoriedade e influenciar positivamente o desempenho do setor nos mercados, conferindo vantagens ao produto nacional livre de desmatamento”, afirma Guyot, acrescentando que isso potencialmente estimularia a adesão crescente dos produtores à adoção de boas práticas e de regularização de passivos socioambientais, propiciando alinhamento entre produção e conservação.
De onde virá a carne certificada
O otimismo se justifica. Hoje, o Brasil dispõe de 2,1 milhões de toneladas de carne que atendem aos requisitos do Termo de Ajustamento de Conduta da Carne na Amazônia Legal (o TAC Carne Legal), com maiores concentrações em Mato Grosso, e Pará. É uma carne totalmente elegível a essa certificação.
Apoiadora de primeira hora do BoT, a TMA havia anunciado, já no lançamento do sistema, a intenção de comprar até 50 mil toneladas da carne certificada ao longo de 2026. “Ela agora está se preparando para cumprir o prometido e mostra disposição de negociar junto aos seus clientes locais um prêmio adicional de até 10% para a carne certificada nos níveis mais avançados do BoT”, explica Guyot.
O efeito esperado do pagamento desse prêmio é que ele alavanque um movimento semelhante ao desencadeado pelo “boi China”, que, no início da década de 2020, impulsionou uma verdadeira revolução ao oferecer pagamento diferenciado pelo gado rastreável e abatido antes de 30 meses. Atraídos pelo adicional no preço, os produtores promoveram mudanças que reduziram as emissões do setor em cerca de 5,8 milhões de toneladas de gás carbônico equivalente em 2022.
Carne de qualidade é outra coisa
Poder e capacidade para promover tal mudança não faltam à associação chinesa. Fundada em 1992 por empresas, instituições e lideranças ligadas à cadeia produtiva da carne – de criação, abate, processamento, logística da cadeia do frio, importação e venda –, a TMA desenvolve ações integradas com Pequim e a província de Hebei para fortalecer a gestão e o controle da cadeia pecuária, com forte ação voltada à segurança alimentar e à promoção da carne de qualidade.
“Quando o assunto é qualidade da carne, o conceito chinês vai muito além do produto consumido. A busca não se restringe a características como maciez, marmoreio ou sabor. Ela abrange também critérios de sustentabilidade”, explica Louise Nakagawa, coordenadora da certificação BoT no Imaflora. A qualidade a que os chineses se referem diz respeito à conservação dos recursos naturais, ao equilíbrio climático (o país quer neutralidade de carbono até 2060) e ao bem-estar e qualidade com a qual os animais são criados – no Brasil, a maior parte do rebanho é criada a pasto, o que, na perspectiva chinesa, impacta positivamente a vida dos animais.
Tal conceito de qualidade é uma vantagem para o Brasil, que pode garantir uma produção afinada com a proteção das florestas tropicais, como assegura o Código Florestal. Aos olhos do consumidor chinês, cada vez mais interessado em práticas sustentáveis, esse conjunto de diferenciais posiciona a carne brasileira não apenas como uma commodity abundante, mas como uma carne verde, ética e sustentável. “O binômio criação a pasto e monitoramento socioambiental, atestado pelo BoT. atendem às expectativas do mercado chinês e, internamente, podem inspirar mudanças no exercício da atividade em outros biomas que almejem esse mercado”, diz Nakagawa.


