Efeitos vão além da porteira e atingem empresas, cooperativas, tradings, exportadores e a imagem do país.
O combate ao trabalho escravo contemporâneo vive um paradoxo perigoso e desafiador. Enquanto cresce no mundo a pressão por cadeias produtivas transparentes, rastreáveis e comprometidas com direitos humanos, no Brasil surgem sinais preocupantes de flexibilização da responsabilidade de infratores e do enfraquecimento de instrumentos que, até aqui, ajudaram a conter abusos.
No campo, onde convivem operações extensas, safras intensivas e uma presença crescente de terceirização em atividades sazonais, cada brecha regulatória pode se transformar em convite à impunidade.
O problema está longe de ser abstrato, trabalhadores são submetidos à coerção, a jornadas exaustivas, alojamentos degradantes e supressão de direitos básicos. E seus efeitos vão além da porteira, atingem empresas, cooperativas, tradings, exportadores e a imagem do país. Em um mercado internacional cada vez mais atento à origem do que compra, o risco deixou de ser apenas jurídico ou moral. Tornou-se também econômico, comercial e reputacional.
No plano global, a dimensão do desafio impressiona. Em 2021, a estimativa mais citada e robusta apontava 50 milhões de pessoas em situação de escravidão moderna no mundo, sendo 28 milhões relacionadas ao trabalho forçado, segundo a Organização Internacional do Trabalho. Quando o foco recai sobre o agro, os números reforçam que se trata de um problema estrutural e recorrente.
No Brasil, os dados recentes das fiscalizações mostram que o setor rural continua entre os mais expostos. Em 2023, o Ministério do Trabalho e Emprego resgatou 3.190 trabalhadores. Entre as atividades com maior número de vítimas estavam o cultivo de café, com 302 resgatados, e a cana-de-açúcar, com 258.
Em 2025, a Inspeção do Trabalho registrou 2.772 resgates em 1.594 ações fiscais. Mais uma vez, a agricultura apareceu com destaque no recorte setorial, e o cultivo de café figurou entre as atividades com mais trabalhadores resgatados, com 184 casos.
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— Foto: Globo Rural
No mesmo período, foram lavrados 4.924 autos de infração, com R$ 41,8 milhões estimados em multas. Um retrato eloquente da escala das irregularidades identificadas. Na ponta florestal, relatórios oficiais também revelam dinâmica semelhante, como nas operações de fiscalização da produção de carvão vegetal em florestas nativas.
É justamente nesse cenário que retrocessos jurisdicionais e governamentais ganham peso. Medidas que permitem reduzir a transparência, retardar sanções ou relativizar responsabilidades não têm efeito neutro, elas enviam ao mercado um sinal de complacência. E, em temas como trabalho escravo, complacência custa caro.
Um dos pontos de maior preocupação está na possibilidade de empregadores flagrados evitarem a inclusão na chamada “lista suja” ao firmarem Termo de Ajustamento de Conduta e migrarem para um cadastro alternativo.
A medida é defendida por alguns como incentivo à reparação, mas seus críticos observam que ela esvazia justamente o principal efeito do mecanismo, o poder dissuasório da publicidade. Sem transparência efetiva, o risco deixa de circular pela cadeia e a capacidade de prevenção se enfraquece.
Outro exemplo veio do setor de proteína animal, em que barreiras políticas e administrativas dificultaram a responsabilização. Houve uso de mecanismo de “avocação” para reabrir processos já concluídos e barrar a publicação de nomes na lista suja, até que a Justiça determinasse a inclusão.


