Estruturar indicadores ESG deixou de ser apenas um exercício de compliance e se tornou uma peça central da estratégia corporativa, seja para empresas do agro, da indústria, do varejo ou do setor financeiro. O desafio raramente é a falta de dados: a maioria das empresas já coleta informações sobre emissões, consumo de recursos, diversidade e governança. O problema surge na hora de organizar esse volume de dados de forma que atenda aos dois principais padrões usados no mercado global, o GRI e o ISSB, resultando em um relatório ESG consistente, auditável e útil para diferentes públicos.
Este guia detalha, passo a passo, como estruturar indicadores ESG para empresas de diferentes setores, incluindo alterações recentes na regulação brasileira.
GRI e ISSB: por que eles pedem lógicas diferentes de indicadores
Antes de organizar qualquer indicador, é preciso entender que GRI e ISSB cumprem funções e fazem exigências distintas, apesar de interligadas. O GRI (Global Reporting Initiative) é o padrão mais consolidado no mundo para relatórios de sustentabilidade, com foco na Materialidade de Impacto, ou seja, o impacto da empresa nas pessoas e no planeta, a partir de uma perspectiva de dentro para fora (inside-out).
Já o ISSB (International Sustainability Standards Board), criado em 2021 e vinculado à Fundação IFRS, publicou em 2023 as normas IFRS S1 (requisitos gerais de divulgação relacionados à sustentabilidade) e IFRS S2 (divulgações relacionadas ao clima). A partir delas, o ISSB adota apenas a Materialidade Financeira: o foco é como fatores ESG afetam positiva ou negativamente o fluxo de caixa, o acesso a capital e o valor da empresa no curto, médio e longo prazo, a partir de uma visão de fora para dentro (outside-in).
Compreender essa diferença de propósito é o que evita relatórios com indicadores desconexos entre si.
Comece pela materialidade dos indicadores ESG para empresas
O ponto de partida de qualquer relatório é o processo de materialidade: identificar, junto a investidores, clientes, colaboradores e comunidades, quais temas ESG são realmente relevantes para aquele negócio em específico. Essa ação é primordial para se chegar a uma matriz de materialidade, que cruza a relevância de cada tema com sua influência financeira para a empresa.
Empresas que reportam simultaneamente para GRI e ISSB costumam construir uma matriz única, com uma camada de impacto socioambiental e outra de risco financeiro, evitando o retrabalho, o custo e o tempo de rodar dois processos separados. A partir desse mapeamento, já é possível identificar os indicadores ESG prioritários para cada setor. Os temas materiais podem variar, mas o método de identificação é o mesmo.
Organize os indicadores nos pilares das normas GRI
Definidos os temas materiais, os indicadores GRI se distribuem em três blocos:
- As Normas Universais (GRI 1, 2 e 3) são obrigatórias para qualquer empresa e cobrem governança, ética, engajamento com stakeholders e o próprio processo de materialidade.
- As Normas Temáticas cobrem tópicos específicos, como emissões (GRI 305), água (GRI 303), resíduos (GRI 306), direitos humanos e diversidade, sendo que a empresa deve selecionar apenas as normas relacionadas aos seus temas materiais.
- E as Normas Setoriais, que trazem indicadores específicos de determinados segmentos econômicos, como a agricultura, a mineração ou óleo e gás, sempre que aplicáveis ao negócio. Para o agro, por exemplo, a norma setorial específica (GRI 13: Agricultura, Aquicultura e Pesca) auxilia a reportar de forma precisa impactos críticos do setor, como o uso do solo, biodiversidade e direitos trabalhistas no campo.
Estruture os indicadores nos quatro pilares do ISSB
O IFRS S1 é a norma de base que estabelece as regras gerais de como a empresa deve comunicar seus riscos e oportunidades ESG que possam afetar seu fluxo de caixa, acesso a capital ou valor de mercado. Já o IFRS S2, que deve ser aplicada em conjunto ao S1, é a norma temática específica sobre mudanças climáticas, exigindo um detalhamento profundo de como o aquecimento global impacta o negócio e como o negócio contribui para o clima.
O IFRS S2 organiza qualquer indicador climático-financeiro em quatro blocos obrigatórios, herdados do antigo TCFD (Task Force on Climate-related Financial Disclosures):
- Governança: como o conselho e a diretoria da empresa monitoram os riscos e oportunidades de sustentabilidade;
- Estratégia: como esses riscos e oportunidades afetam o modelo de negócios, o planejamento financeiro e a estratégia da empresa no curto, médio e longo prazo, incluindo análise de cenários, como 1,5°C e acima de 3°C de aquecimento global;
- Gestão de Riscos: processo que a empresa usa para identificar, avaliar e mitigar esses riscos;
- Métricas e Metas: como a empresa mede o seu desempenho (indicadores) e quais metas quantitativas ela definiu.
Essa estrutura serve de referência mesmo para empresas que ainda não adotam formalmente o ISSB, por ser compatível com frameworks internacionais como o CDP (Carbon Disclosure Project) e o CSRD (Corporate Sustainability Reporting Directive) europeu.
Indicador fundamental: Emissões de GEE nos três escopos
Um indicador atravessa os dois padrões e qualquer setor: as emissões de gases de efeito estufa (GEE), divididas em Escopo 1 (emissões diretas, geradas pela própria operação), Escopo 2 (emissões indiretas da energia comprada) e Escopo 3 (emissões indiretas ao longo de toda a cadeia de valor, de fornecedores a uso do produto pelo cliente).
O Escopo 3 costuma ser o mais complexo de mensurar, pois depende de dados de terceiros e, normalmente, representa a maior fatia das emissões totais de uma empresa. Desafio central na consolidação de indicadores ESG para o agro, por exemplo, onde o Escopo 3 envolve uma cadeia complexa de produtores e fornecedores indiretos.
Estruture a governança de dados e a coleta dos indicadores
Nenhuma estrutura de indicadores se sustenta sem governança de dados. Isso significa definir donos responsáveis por cada indicador, a periodicidade de coleta, o sistema de registro (planilhas, softwares especializados de ESG ou módulos de ERP) e uma trilha de auditoria que permita rastrear a origem de cada número.
Empresas que reportam para múltiplos frameworks (GRI, ISSB, CDP, CSRD) costumam construir uma matriz de interoperabilidade, na qual um mesmo dado, como as emissões de Escopo 1, alimenta diferentes relatórios sem necessidade de coleta duplicada.

Erros comuns ao estruturar indicadores ESG para empresas
Alguns erros recorrentes comprometem a qualidade dos relatórios, mesmo em empresas com processos maduros de sustentabilidade.
O primeiro é pular a etapa de materialidade e reportar todos os indicadores disponíveis, o que gera relatórios extensos, mas pouco relevantes para investidores e demais públicos.
O segundo é tratar GRI e ISSB como projetos isolados, com equipes e planilhas diferentes, o que multiplica o esforço de coleta e aumenta o risco de inconsistências entre documentos publicados pela mesma empresa.
O terceiro é negligenciar o Escopo 3 nas emissões de GEE, mesmo sabendo que ele costuma representar a maior parte da pegada de carbono total, sobretudo em cadeias de valor longas.
Por fim, muitas empresas ainda tratam a governança de dados como uma etapa final do processo, quando na verdade ela deveria ser definida antes mesmo da coleta começar, já que retrabalhos e inconsistências normalmente nascem da ausência de responsáveis claros por cada indicador desde o início.
Evitar esses erros exige um planejamento anual do relatório, alinhado ao calendário financeiro e societário da empresa, com prazos definidos para materialidade, coleta, consolidação, revisão interna e, quando aplicável, asseguração externa. Esse planejamento também facilita a resposta a exigências pontuais de investidores, clientes B2B ou parceiros comerciais que solicitem dados específicos fora do ciclo normal de publicação, sem que a empresa precise recomeçar o levantamento do zero a cada solicitação.
O que mudou com a resolução da CVM em 2026
Um ponto de atenção para quem estrutura indicadores ESG no Brasil é o cenário regulatório recente. A Resolução CVM nº 193, de 2023, havia colocado o Brasil na vanguarda global quando o tema é finanças sustentáveis. A resolução exigia formalmente das companhias abertas a divulgação de informações financeiras de sustentabilidade nos moldes das normas IFRS S1 e S2, com obrigatoriedade prevista a partir de 1º de janeiro de 2026.
No entanto, em maio de 2026, a CVM publicou a Resolução nº 244, que revogou essa obrigatoriedade. A decisão veio após pressão de associações empresariais que alegaram custos elevados de conformidade e sobreposição com outras mudanças regulatórias e tributárias em curso. Na prática, o reporte no padrão ISSB tornou-se voluntário, seguindo um modelo de "pratique ou explique", no qual companhias que optarem por não divulgar devem justificar publicamente essa decisão a partir de 2027.
Boas práticas para consolidar um relatório ESG empresa confiável
Por fim, vale equilibrar indicadores quantitativos (emissões em tCO2e, consumo de água em m³, percentual de resíduos reciclados, diversidade em cargos de liderança) com indicadores qualitativos (políticas internas, estrutura de governança, engajamento com stakeholders), já que ambos os padrões exigem essa combinação. Buscar asseguração externa, mesmo quando não obrigatória, também aumenta a credibilidade do relatório perante investidores, clientes e parceiros comerciais.
Com materialidade bem definida, indicadores organizados nos pilares corretos e governança de dados consistente, sua empresa consegue estruturar um relatório ESG alinhado tanto ao GRI quanto ao ISSB. E mesmo em um cenário regulatório brasileiro que hoje privilegia a adoção voluntária desses padrões, sua adoção é uma decisão estratégica da empresa para atender, principalmente, a demanda de investidores e o acesso a algumas linhas de crédito.
Como o Imaflora pode apoiar a sua jornada ESG?
A estruturação de relatórios ESG complexos e transversais exige experiência técnica e conhecimento de campo, competências que o Imaflora aplica há décadas no desenvolvimento de cadeias produtoras responsáveis. Nós apoiamos a sua empresa desde o mapeamento da dupla materialidade até a governança de dados para inventários de emissões e rastreabilidade, preparando o seu negócio para atender às mais altas demandas do mercado financeiro e de stakeholders globais.



