A partir do manejo responsável, pirarucu gera mais renda para comunidades do Solimões
Comércio ético e preço justo da rede Origens Brasil® influencia mercado do pirarucu sustentável na Amazônia
07/08/2023
O manejo sustentável do pirarucu, um dos maiores peixes de água doce do país, viabiliza fonte de renda para comunidades que vivem no Rio Solimões e vem se estabelecendo como uma cadeia de grande importância para a região. Correndo risco de extinção por conta da atividade predatória, a pesca do gigante da Amazônia foi proibida pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em 1996. Mais de duas décadas depois, há motivos para comemorar. Graças a pesquisas e trabalho técnico junto ao conhecimento tradicional, foram estabelecidas diretrizes para a pesca responsável e o animal voltou aos rios. Em 2022, os pescadores do estado do Amazonas comercializaram cerca de 62 mil unidades de peixe.
A metodologia do manejo da espécie na região foi criada pelo Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM) em conjunto com manejadores e vem sendo conduzida há 24 anos, tornando-se referência no estado do Amazonas com o objetivo de garantir a sustentabilidade da pesca, conservar o equilíbrio no ecossistema e, ao mesmo tempo, gerar renda para as populações locais. Administrada pelo Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), a rede Origens Brasil® participa dessa cadeia desenvolvendo o trabalho de articulação em prol de negócios éticos da sociobioeconomia.
O Território do Solimões está inserido no Corredor Central da Amazônia. Por meio da rede Origens Brasil®, quatro instituições de apoio e organizações comunitárias viabilizam o fortalecimento da economia da floresta em pé na região, juntamente com 467 produtores cadastrados, que só em 2022 comercializaram quase R$ 620 mil, com transações justas de quatro produtos: pirarucu, artesanato de molongó, farinha e artesanato de teçume. “O resultado desse trabalho se expressa para além da produção e da renda gerada, contribuindo para a conservação de milhões de hectares de floresta em pé. As relações ainda estão em desenvolvimento e se aperfeiçoando, mas com atuação em rede e por meio dos critérios de comércio ético o caminho está sendo pavimentado olhando para o futuro”, complementa Luiz Brasi, coordenador da rede Origens Brasil® no Imaflora.
O primeiro ano de atuação da rede Origens Brasil® na região Solimões, 2019, movimentou R$ 38,3 mil e ainda não contava com articulação para comércio do pirarucu sustentável, mesmo com essa atividade econômica já bem desenvolvida na região. Em 2020, quando a Cocar & Co, empresa especializada em alimentos naturais e orgânicos da Amazônia, tornou-se membro da rede, o pirarucu ganhou destaque e o total comercializado chegou a R$ 102 mil. Ainda que a rede esteja em processo de amadurecimento, dois anos depois a parceria já fez crescer em meio milhão o valor comercializado por extrativistas e manejadores da região.
“A operação da Cocar &Co começou em 2013, como representante de frigoríficos locais em diversos pescados. Em 2019, passamos a comprar 100% do pirarucu por meio da rede no arranjo comercial porque sentimos a necessidade de unir forças com as comunidades e abraçar o comércio ético. O desenvolvimento do negócio é o que nos permite gerar impacto social na comunidade e comprar o pescado por um preço acima da média da região, influenciando o mercado local e valorizando o trabalho de manejo sustentável do pirarucu”, explica Paulo Oliveira, Sócio-Diretor da Cocar & Co.
O potencial de aproveitamento total do "gigante da Amazônia" e a sua importância para a geração de renda para povos ribeirinhos serão apresentados dia 05 de agosto na Churrascada, em São Paulo. No evento, o chef Saulo Jennings irá apresentar formas de preparo do peixe. E para fortalecer as comunidades que estão na ponta dessa cadeia, será realizado o leilão da primeira pintura em couro sustentável do pirarucu, feita pelo artista Raiz Campo. Toda a renda do leilão será revertida para o Acordo de Pesca do Setor Pantaleão da Reserva Amanã, grupo que conta com o apoio do Instituto Mamirauá.
O comércio da pele do peixe, chamada de couro sustentável, tem o potencial de aumentar ainda mais a importância da cadeia e promove um aproveitamento quase integral do animal. “Nossa presença no evento tem o objetivo de comunicar a riqueza gastronômica da Amazônia e valorizar o trabalho de extrativistas e manejadores”, conta Oliveira.
Alto valor e garantia de produção
O pirarucu pode chegar até 200kg e está entre as 10 principais espécies amazônicas em valor comercial: em 2022, a produção do pirarucu com supervisão do IDSM chegou a R$ 4 milhões, enquanto o total comercializado de outras espécies foi de R$ 580 mil.
“Para 2023, temos a expectativa de impulsionar a comercialização de 14,9 mil peixes. Em agosto, vamos fazer uma rodada de negócios para tratar dos acordos comerciais, e só iniciamos a pesca com adiantamento de uma parte do pagamento necessária para bancar os custos iniciais da operação. A maior parte da venda é tratada diretamente com frigoríficos, principalmente da Região Metropolitana de Manaus, e uma parte de 11% da produção está sendo negociada com a Cocar &Co. A principal diferença entre hoje e 24 anos atrás é que os estoques de pirarucu estavam muito baixos e não havia garantia de produção. Agora, quando chegamos na rodada de negociação, temos a garantia de que tem peixe”, conta Ana Cláudia, coordenadora do Programa de Manejo de Pesca do IDSM.
O Instituto Mamirauá dá suporte e presta assessoria técnica para 41 comunidades, 3 colônias de pescadores e 2 associações, além de supervisionar o cumprimento da legislação e a execução do plano de manejo do pirarucu aprovado ano a ano. Entre as exigências do Ibama estão a comprovação do processo de discussão com o grupo de manejo, estudo de zoneamento para definir as áreas em que cada grupo poderá pescar, descrição da repartição de benefícios e remuneração e a viabilidade econômica, especificando volume, comprador da produção e sistema de governança.
“O fomento para a produção do pirarucu sustentável necessita que o mercado valorize os manejadores e extrativistas, equiparando a negociação e fechando negócios com preços mais justos. Dessa forma será possível aliar geração de renda para comunidades, incentivos para a conservação da Amazônia e impacto positivo na economia por meio das relações comerciais justas”, completa Luiz Brasi.
Confira também

Encontro multissetorial define estratégias para impulsionar uma retomada sustentável da cadeia da borracha extrativista amazônica
08/05/2023

Mais empresas investem na “floresta em pé”
14/07/2021

Comunidade indígena aplica sistema inovador para divisão de renda do manejo do pirarucu
11/05/2021
Gênero: percepção e papel da mulher nos impactos do Origens Brasil® - Uma rede que que promove negócios sustentáveis na Amazônia em Unidades de Conservação e Áreas Protegidas
28/03/2022