Por Eduardo Trevisan*, Raimundo B Souza e Victor Neves
O risco de a Amazônia enfrentar uma de suas maiores provações climáticas com a consolidação de um super El Niño de intensidade histórica vem se confirmando.
A nota técnica conjunta emitida pelo INPE, INMET, Funceme e Censipam aponta alta probabilidade (superior a 80%) de formação e de persistência do fenômeno no segundo semestre de 2026, com reflexos no regime de chuvas e nas temperaturas de todo o país.
Para a Amazônia, projeta-se um cenário de seca extrema e calor recorde, alterando profundamente o ciclo de chuvas na maior floresta tropical do planeta. É uma ameaça direta para a população local, sobretudo agricultores familiares, ribeirinhos, quilombolas e indígenas.
A agricultura familiar amazônica carrega uma vulnerabilidade intrínseca que potencializa os efeitos de qualquer extremo climático. Diferentemente do que acontece em grandes propriedades, o pequeno produtor ribeirinho ou assentado depende diretamente da regularidade das chuvas e da saúde dos solos locais, dispondo de pouca infraestrutura de irrigação ou reservas financeiras para lidar com perdas de safra.
Ao interferir no regime hídrico, o El Niño pode atingir esse sistema produtivo vulnerável, desencadeando insegurança alimentar e nutricional, inflação local no custo dos alimentos e até desestruturação de comunidades tradicionais.
Os impactos nos cultivos de terra firme são imediatos e devastadores para a economia doméstica local. A mandioca, base da farinha que alimenta e gera renda essencial para as famílias da região, entra em estresse hídrico sob o calor extremo, reduzindo drasticamente o tamanho e o peso das raízes.
Culturas permanentes, como cacau, guaraná, cupuaçu, açaí, sofrem com a perda de produtividade devido à falta de umidade no solo. Cultivos anuais, como feijão, milho, verduras, podem morrer ou simplesmente não se desenvolver. Pode faltar água até mesmo para saciar a sede dos animais.



