Encontros reuniram quase 200 pessoas em comunidades do Pará e Amazonas para discutir gestão, mercado e o futuro da produção extrativista

As dinâmicas realizadas durante o seminário reforçaram a importância da participação ativa para o desenvolvimento de estratégias mais assertivas e integrada – Foto: Acervo Coopaflora
Entre outubro de 2025 e fevereiro de 2026, lideranças quilombolas e indígenas da Amazônia se reuniram para discutir um tema central para quem vive da floresta: como fortalecer a produção extrativista e garantir renda sem destruir o território.
O debate aconteceu durante o ciclo de seminários “Coopaflora em Movimento”, realizado pela Cooperativa Mista dos Povos e Comunidades Tradicionais da Calha Norte (Coopaflora). Os encontros percorreram territórios no norte do Pará (municípios de Oriximiná e Alenquer) e também o município de Nhamundá, no Amazonas.
Ao todo, 187 pessoas participaram dos seminários, sendo 100 mulheres, reforçando o protagonismo feminino nas decisões sobre o futuro da cooperativa e da produção da sociobiodiversidade na região.
Os encontros foram realizados em parceria com o Programa Florestas de Valor do Imaflora, com apoio da Fundação Jacobs, do Iepé e de associações indígenas e quilombolas da região.
Mais do que reuniões, os seminários funcionaram como espaços de planejamento coletivo. O principal resultado foi a construção do Plano de Fortalecimento Participativo (PFP), um documento que reúne metas, prioridades e responsabilidades para os próximos anos da cooperativa.
Floresta em pé também gera renda

A integração da Coopaflora com seus parceiros reforça a rede de apoio necessária para valorizar e garantir a floresta em pé. Foto: Acervo Coopaflora
Para quem vive nos territórios, a discussão sobre bioeconomia passa por uma pergunta simples: como transformar produtos da floresta em renda justa para as famílias?
Segundo Maria Farias, coordenadora do programa Florestas de Valor do Imaflora, a Coopaflora vive hoje um momento decisivo de crescimento e organização.
“O momento da cooperativa é de movimento. Estamos trabalhando para fortalecer a gestão e garantir que a organização tenha autonomia. Uma cooperativa bem estruturada consegue ampliar parcerias, acessar mercados e políticas públicas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA)”, explica.
Esses programas permitem que alimentos produzidos por agricultores familiares e comunidades tradicionais cheguem diretamente a escolas e políticas de abastecimento público. Durante os seminários, os participantes também analisaram as cadeias produtivas que sustentam muitas famílias na região, como castanha-da-amazônia, óleo de copaíba e cumaru.
A discussão incluiu desde boas práticas de produção até a relação com empresas compradoras.
“O extrativista faz um trabalho duro na floresta. Muitas vezes a conta não fecha se esse esforço não for valorizado. Por isso falamos tanto de transparência, preço justo e renda que realmente sustente a vida das famílias”, afirma Farias.
Mulheres à frente da cooperativa

O empoderamento se constrói com conhecimento e ocupação de espaços. Registros de uma jornada de trocas intensas durante o Finsa (Festival de Investimentos de Impactos & Negócios Sustentáveis na Amazônia). Foto: Acervo Coopaflora.
Outro destaque do processo é a presença feminina na gestão da cooperativa. A Coopaflora é presidida por Maria Daiana da Silva, que enfatiza o desafio de liderar uma organização formada por comunidades espalhadas por grandes territórios.
“Para nós, mulheres, estar à frente da cooperativa é um desafio constante. Nosso compromisso é garantir que a transparência na gestão seja real, que os cooperados entendam como os recursos são utilizados e que os benefícios cheguem às comunidades”, afirma.
Segundo ela, a gestão precisa manter diálogo permanente com quilombos e aldeias.
“Estamos sempre conversando com nossos parentes nos territórios, buscando melhorias e aprendendo juntos”, diz.
Valor da origem
Outro tema importante discutido nos seminários foi a valorização da origem dos produtos da floresta. A cooperativa trabalha com o Selo Origens Brasil, que garante a rastreabilidade dos produtos e identifica que eles vêm de territórios tradicionais.
Para Daiana, isso ajuda a abrir portas em novos mercados.
“Quando o consumidor conhece a origem do produto, ele entende que por trás da castanha ou do óleo existe o trabalho de muitas famílias e a conservação da floresta. Isso transforma nosso trabalho em dignidade financeira”, afirma.
Planejamento para o futuro
Os seminários marcaram um novo momento de organização da Coopaflora. Além da troca de experiências entre as comunidades, os encontros resultaram em um planejamento concreto para fortalecer a cooperativa nos próximos anos. Entre as prioridades definidas estão a ampliação do acesso a mercados institucionais, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), o fortalecimento da comunicação entre as comunidades, a melhoria da logística para o escoamento da produção, a ampliação do uso de certificações e selos de origem e o fortalecimento da governança da própria cooperativa.
Nos territórios visitados, o sentimento compartilhado entre os participantes foi de união entre comunidades indígenas e quilombolas em torno de um mesmo objetivo: transformar a floresta em um caminho de geração de renda, autonomia e conservação. Para as lideranças locais, quando a produção é organizada e valorizada, a floresta em pé passa a ter mais valor do que derrubada, garantindo sustento para as famílias e proteção para o território.


