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Os desafios da Conferência de Bonn para as negociações climáticas e um novo futuro

25/06/2026

Ao fim de mais uma Conferência de Bonn, as negociações que antecedem a COP, o mundo segue com um dos principais desafios para construir uma frente sólida de enfrentamento à crise climática: efetivar a implementação dos acordos realizados na COP 30, realizada em Belém. Entre as negociações consideradas mais importantes, destaca-se o compromisso de ampliar significativamente o financiamento internacional destinado à adaptação e mitigação climática até 2035. Apresentado como uma das principais conquistas da presidência brasileira na Conferência, o acordo busca fortalecer os recursos voltados exclusivamente para ações de enfrentamento às mudanças climáticas, especialmente em países mais vulneráveis aos seus impactos. 

 

Entretanto, essa vitória foi acompanhada de entraves difíceis de serem superados. Um dos principais diz respeito à operacionalização desse financiamento. Questões como a origem dos recursos, as responsabilidades entre países com diferentes níveis de desenvolvimento econômico e os mecanismos capazes de garantir a efetiva entrega desses investimentos permaneceram sem respostas definitivas em Belém.

 

A Conferência de Bonn evidencia justamente essa dificuldade de transformar os acordos da COP30 em ações concretas. Se, em anos anteriores, as divergências técnicas representavam um desafio para mapear os caminhos de enfrentamento às mudanças climáticas, hoje o desafio está em construir os meios efetivos para colocar esses caminhos em prática. Observa-se ainda uma conjuntura política internacional que dificulta uma resposta global mais efetiva à crise climática. O cenário geopolítico marcado por guerras, disputas econômicas e instabilidades em diferentes regiões do planeta, somado aos conflitos de interesse entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, coloca uma questão central sobre a mesa: como construir consensos capazes de garantir a implementação dos acordos já firmados? 

 

Outro ponto sensível é o debate sobre os combustíveis fósseis. Existe ampla comprovação científica de que o enfrentamento às mudanças climáticas depende da redução significativa do uso dos combustíveis fósseis, especialmente nos setores de transporte, geração de energia e indústria. No contexto brasileiro, essa discussão passa também pelo papel dos biocombustíveis e pela redução das emissões associadas à produção de petróleo e gás. Ainda assim, muitos países continuam profundamente dependentes do petróleo para movimentar suas economias. Soma-se a isso um contexto de conflitos internacionais em que o petróleo segue ocupando posição estratégica na economia global.

 

Em Bonn, a delegação brasileira teve papel relevante com o lançamento do primeiro mapa do caminho para o fim dos combustíveis fósseis. Foram mais de 115 países e 247 atores não vinculados ao estado que enviaram contribuições para o desenvolvimento do documento. Além disso, Brasil e Turquia apresentaram a proposta para o Acelerador Global de Implementação, mecanismo de cooperação voluntária criado na COP30.

 

Outro eixo, muitas vezes pouco debatido nos desdobramentos da conferência, diz respeito à relação entre clima e comércio internacional. Durante muito tempo, negociações climáticas e negociações comerciais caminharam dissociados. As últimas Conferências de Bonn têm mostrado a necessidade de um diálogo mais permanente e alinhado entre essas duas agendas, especialmente diante do desafio de descarbonizar as economias sem ampliar desigualdades sociais entre as nações. A partir desse debate, novos tensionamentos têm surgido, principalmente nas relações entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento, uma vez que a descarbonização da economia reflete em mudanças dos sistemas produtivos e insumos utilizados com desdobramentos econômicos diversos entre os países. 

 

Para a agropecuária, o caminho já está mais pavimentado, demandando implementação, ação e consenso, uma vez que as práticas e tecnologias de mitigação e adaptação dos sistemas produtivos já estão à disposição para serem adotados. Apesar disso, o Trabalho Conjunto em Sharm el-Sheikh para a Implementação de Ações Climáticas na Agricultura e Segurança Alimentar (SJWA, sigla em inglês), programa criado para trazer a produção agropecuária e sua relação com segurança alimentar para o âmbito das negociações, apresentou poucos avanços, adiando a definição de alguns dos seus principais pontos para a próxima Conferência de Bonn.

 

No workshop do grupo, que tinha o objetivo de identificar as demandas e encaminhar formas de facilitar os meios de implementação para a produção agropecuária e segurança alimentar, foram sinalizados desafios já discutidos e conhecidos mundialmente, como o baixo acesso da agricultura ao financiamento climático, limitações de capacidade técnica e a necessidade de ampliar apoio financeiro, tecnológico e de capacitação. Também não houve consenso em temas centrais, como o escopo e direcionamento do programa, se deve ou não focar em agendas que estão relacionadas com agropecuária e segurança alimentar, como implementação, sistemas alimentares e mitigação. Como resultado, houve apenas a publicação de um texto procedimental e que adia para a próxima sessão a discussão desses pontos.

 

O interessante é que Bonn garantiu a continuidade do processo, mas transferiu para a próxima sessão decisões fundamentais para definir o futuro da agenda de agricultura e segurança alimentar na UNFCCC antes da COP31, incluindo a definição de prorrogar ou não os trabalhos do grupo de Sharm el-Sheikh.

 

A Conferência de Bonn nos revela, mais uma vez, um novo desafio no enfrentamento às mudanças climáticas e na concretização dos compromissos assumidos na COP30. O desafio já não está apenas na formulação de acordos ou na construção de consensos técnicos, mas na capacidade de operacionalizar mudanças reais. Enfrentar os entraves políticos, financeiros e institucionais é uma responsabilidade compartilhada entre nações, instituições e organizações. Enquanto sociedade civil organizada, seguimos contribuindo, a partir de uma perspectiva técnica, para a construção dos caminhos que permitam sonhar com um futuro em que a crise climática deixe de ser uma ameaça permanente e se torne uma realidade superada.

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