DO IEMA e DO IMAFLORA – Estamos presenciando, neste primeiro quarto do século XXI, uma revolução no modo de vida, em que a produção e uso de dados se tornaram parte do cotidiano. Dados estão sendo gerados, tratados e interpretados a quase todo momento, em quase todo lugar. Dos mais simples, como nome e e-mail solicitados para entrar em um evento, aos mais complexos, como leituras de satélites, capazes de traçar uma rota exata entre a casa de um palestrante e o local de tal evento.
Essa transformação ganhou contornos tão intensos nas últimas décadas que a revista britânica “The Economist” chegou a afirmar, na capa da edição de maio de 2017, que dados se tornaram os recursos mais valiosos do planeta, tomando o lugar do petróleo. Assim como as petroleiras exploram óleo cru e o refinam para obter derivados, grandes empresas de tecnologia estão minerando dados e transformando-os em informações para alimentar decisões estratégicas.
O mundo ainda está tentando entender os prós e contras dessa digitalização da vida. Como pró, pode-se citar a qualificação de políticas públicas, uma vez que a produção e a disponibilização de dados por governos ou organizações da sociedade civil proporcionam um ambiente de participação social, favorecendo a transformação da realidade na direção entendida como mais adequada.
O SEEG – sigla para Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa – é um exemplo do potencial da divulgação de dados visando o interesse público. O projeto produz informações atualizadas sobre emissões de gases de efeito estufa no Brasil, por diferentes unidades administrativas, recortes de biomas e atividades econômicas. Com isso, espera-se que governos e cidadãos possam entender os perfis de emissão do país e, então, planejar e implementar políticas e ações de mitigação, sem deixar de buscar superar as desigualdades existentes de classe, gênero e raça.
Coordenado pelo Observatório do Clima, o SEEG chega em 2026 aos seus 14 anos de história, fornecendo informações abertas que produzem impacto em diferentes esferas: munem a sociedade civil para cobrar tomadores de decisão por mais ambição climática; mostram aos governos caminhos possíveis e os poupam do custoso trabalho de inventariar gases; são base para propostas do poder legislativo; interagem com o setor acadêmico na medida em que utilizam e promovem a melhor ciência de estimativa de emissões; permitem que empresas e seus clientes se conscientizem acerca do que emitem; bem como produzem úteis narrativas a serem difundidas pela imprensa.
Sua relevância cresce a cada ano. Os dados do SEEG já foram utilizados, por exemplo, para a elaboração do inventário oficial de emissões de carbono do estado da Bahia. Eles serviram também para a criação dos indicadores usados pela Caixa Econômica Federal no processo de certificação de municípios que aplicam boas práticas de governança e responsabilidade ambiental. Até no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que dá acesso a diferentes universidades Brasil afora, o SEEG já foi mencionado!
Além disso, vale citar que o Observatório do Clima, por meio do SEEG, realiza proposições de cenários futuros, elaborando análises de como o país pode descarbonizar sua economia, o que influencia o debate acerca das mudanças climáticas no país. Tudo isso mostra como dados abertos e engajamento público podem criar um ambiente colaborativo de geração de conhecimento, monitoramento de políticas públicas e construção de visões e, sobretudo, ações de interesse amplo. O uso de tecnologia e plataformas web é muito bem-vindo e parte relevante dos resultados alcançados pelo SEEG. No entanto, a mais importante tecnologia aplicada é a social: o trabalho em rede e o engajamento de diferentes atores.
A contribuição que o SEEG oferece ao debate climático brasileiro só pode ocorrer em um ambiente democrático, com uma sociedade civil forte, organizada e propositiva. O trabalho já influenciou iniciativas parecidas na Índia e no Peru, e seria extremamente positivo que mais países e locais desenvolvessem soluções semelhantes. Isso certamente contribuiria para mudar o clima.
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Felipe Barcellos e Silva é pesquisador no Instituto de Energia e Meio Ambiente e no SEEG
Gabriel de Oliveira Quintana é analista de Ciência do Clima no Imaflora e no SEEG



