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Dinheiro cresce em árvore, se as florestas forem priorizadas

29/05/2026

Por *Patrícia Cota, André Aquino e Felipe Storch

 

Se há consenso de que as florestas são essenciais para a economia, geração e manutenção de empregos, bem-estar humano, por que seguimos financiando mais sua destruição do que sua conservação e insistindo em premiar quem desmata?

 

O Brasil é uma potência florestal, mas o real valor das florestas não é plenamente considerado nas decisões dos diferentes atores.

 

As florestas sustentam cadeias produtivas inteiras, regulam ciclos climáticos e hidrológicos e abrigam modos de vida de milhões de pessoas. Esses são valores reais, mas não monetizados, o que leva a uma falta de financiamento crônica para a manutenção e restauração das florestas.

 

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) estima em US$ 300 bilhões o financiamento anual necessário para as florestas globais em 2030, porém o gasto real, em 2023, limitou-se a US$ 84 bilhões, ou seja, o financiamento tem uma lacuna de US$ 214 bilhões, quase o PIB do Peru. Outro estudo do PNUMA aponta algo mais grave: o mundo destinou em 2023 em torno de US$ 7,3 trilhões a atividades que degradam a natureza, incluindo subsídios e investimentos em setores intensivos em carbono e desmatamento. Segundo esse estudo, para cada US$ 1 de investimentos em soluções baseadas na natureza, cerca de US$ 30 são direcionados a atividades que a destroem.

 

Novas formas de financiamento para a conservação e restauração florestal estão sendo criadas e o Brasil tem liderado esse movimento. O mercado de carbono, apesar do vai-e-vem, busca monetizar os estoques de carbono existentes nas florestas em pé, ou absorvidos (sequestrados) por meio de restauração. Estima-se que poderia gerar entre US$ 3 bilhões e US$ 6 bilhões via pagamento a programas de redução de emissão de gases de efeito estufa provenientes do desmatamento (REDD +) em nível jurisdicional, ou seja, programas de estado. O Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), desenhado e liderado pelo Brasil, teria também potencial para desembolsar US$ 4 bilhões anualmente para remunerar países em desenvolvimento pela conservação das suas florestas tropicais.

 

Surgem igualmente mecanismos facilitadores de capital para ‘negócios da floresta’. O BNDES montou um portfólio de soluções financeiras com crédito a empresas do setor florestal e doações a governos e organizações da sociedade civil para conservação e restauração. O Fundo Amazônia injetou quase R$ 2 bilhões nos dois últimos anos em projetos de conservação florestal, combate ao desmatamento, restauração e fortalecimento de cadeias produtivas sustentáveis.

 

O EcoInvest, iniciativa coordenada pelos ministérios da Fazenda e do Meio Ambiente e Mudança do Clima, tem mobilizado volumes de capital expressivos para a transição verde, incluindo para a restauração de áreas degradadas e bioeconomia. Mais de R$ 127 bilhões mobilizados para o financiamento de projetos, sendo R$ 57 bilhões captados no exterior e com uma rede de 12 bancos (públicos e privados) parceiros. Os projetos beneficiados estão nas áreas de transição energética, bioeconomia, economia circular e infraestrutura verde e adaptação.

 

Até o início de 2026, o Programa já mobilizou mais de R$ 127 bilhões. Desse total, R$ 30 bilhões deverão ser direcionados à recuperação produtiva de 1.4 milhão de hectares degradados, com foco em ampliar a produção agrícola sem pressionar novos desmatamentos. Até o momento, mais de R$ 21 bilhões já resultaram em financiamentos concedidos a projetos sustentáveis. Em sua quarta rodada, o Eco Invest amplia o escopo e direciona investimentos para bioeconomia, turismo sustentável e infraestrutura habilitante na Amazônia Legal, reforçando seu papel como instrumento de fomento a atividades econômicas que valorizam a floresta em pé, geram renda para comunidades locais e promovem desenvolvimento sustentável na região.

 

Outro avanço promissor é que a economia ambiental tem estimado com maior precisão o valor dos serviços ecossistêmicos e há iniciativas para incorporá-los na tomada de decisão - como os esforços de cálculo de um “PIB Verde” pelo governo federal. As análises econômicas de projetos de infraestrutura também têm considerado o valor dos serviços ecossistêmicos com maior atenção.

 

No setor privado, o reconhecimento da riqueza gerada pelas florestas aterrissa com inovações como a estruturação de cadeias que aliam sociobiodiversidade e manutenção florestal, uso de blended finance para ampliar capital de giro e apoio técnico a cooperativas e associações agroextrativistas, além da oferta de investimentos baseados em conservação e bioeconomia.

 

São novos caminhos para financiar a conservação florestal em escala. ‘Financiar o verde’ deve ser acompanhado de ‘esverdear’ as finanças - ou seja, reverter a alocação de incentivos econômicos e financeiros para as atividades que degradam os ecossistemas. Nesse sentido, o MMA tem promovido alterações nas regras do Plano Safra para premiar práticas agropecuárias sustentáveis e, mais recentemente, produtos que protegem a vegetação nativa em excedente do requerido pelo Código Florestal como reserva legal.

 

O desafio exige uma ampla rede de lideranças capazes de estruturar soluções financeiras para a floresta em pé e para sua restauração. Profissionais que entendam e saibam operar fundos públicos e privados, blended finance, pagamentos por serviços ambientais, mecanismos de garantias, mercados ambientais e modelos de negócio da bioeconomia.

 

Além de novos recursos, superar esse descompasso exige capacidade de coordenar diferentes instrumentos financeiros no chão. Traduzir oportunidades em projetos viáveis, estruturar soluções financeiras complexas e conectar capital a iniciativas concretas no território ainda são gargalos centrais. É preciso articular e formar pessoas com diferentes perfis para traçar caminhos e desenvolver instrumentos para o financiamento concreto das nossas florestas.


* Patrícia Cota é diretora adjunta do Imaflora

*André Aquino é coordenador pedagógico do Floresta Investe+

*Felipe Storch é especialista em financiamento florestal e coordenador pedagógico do Floresta Investe+

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