A marca “Delícia do Quintal” foi criada pela Associação das Mulheres Produtoras de Polpa de Fruta e, com o suporte do PNAE, movimentou aproximadamente R$ 375 mil em um único ano.

No município de São Félix do Xingu, historicamente marcado pelos altos índices de desmatamento associados à pecuária, um grupo de 43 mulheres está mostrando que a floresta em pé pode ser fonte de renda.
O que antes era área de capim, hoje, se tornou uma floresta produtiva, por meio da implantação de Sistemas Agroflorestais (SAFs), que combinam espécies nativas, frutíferas e cultivos da agricultura familiar, como verduras e legumes. Desde 2018, a iniciativa conta com suporte técnico do programa Florestas de Valor do Imaflora, apoiado pela Petrobrás.
Da floresta ao mercado institucional
A produção é realizada na agroindústria da AMPPF e chega diretamente à mesa de crianças e adolescentes, por meio de políticas públicas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
Segundo Celma de Oliveira, coordenadora do Florestas de Valor do Imaflora em São Félix do Xingu, o programa atua como ponte técnica e institucional:
“Garantimos que a associação tenha segurança jurídica e técnica para gerir recursos públicos com transparência. O PNAE e o PAA funcionam como ferramentas de conservação ambiental ao criarem um mercado institucional para a agricultura familiar sustentável.”
Ao gerar demanda estável para produtos da sociobiodiversidade, essas políticas reduzem a pressão por abertura de novas áreas e valorizam a produção local.
“Delícia do Quintal”: autonomia e geração de renda
A transformação produtiva é liderada pela Associação das Mulheres Produtoras de Polpa de Fruta (AMPPF), que completa 13 anos em 2026. A associação criou a marca “Delícia do Quintal”, voltada ao beneficiamento de frutas que antes se perdiam nos quintais das famílias.
Com apoio do PNAE, a associação movimentou aproximadamente R$ 375 mil em um único ano, consolidando-se como referência local de empreendedorismo feminino.
Hoje, a AMPPF opera com infraestrutura própria, incluindo usina de processamento e câmaras frias, estrutura conquistada por meio de projetos elaborados pelas próprias associadas.
“Quem não tinha nada, hoje pode dizer que temos tudo”, afirma Maria Josefa Machado Neves, presidente da associação.
Impacto ambiental e social
Os efeitos vão além da renda. A mudança também é visível na paisagem.
“Hoje a gente olha pela janela e não vê mais o amarelado do capim. Com os novos plantios, passamos a morar no meio da floresta”, relata Maria Josefa.
O modelo baseado nos SAFs demonstra como inclusão produtiva, governança participativa e acesso a mercados institucionais podem reduzir conflitos ambientais e fortalecer a economia local. A autonomia econômica feminina impacta diretamente na qualidade de vida das famílias, ampliando investimentos em saúde, educação e segurança alimentar.
Mulheres da sociobiodiversidade fortalecem a alimentação escolar

Foto: Maria Josefa Machado Neves, presidente da AMPPF assinando o contrato PNAE com a Secretaria de Educação de São Félix do Xingu- Chamada Pública 2026.
Em fevereiro deste ano, a AMPPF assinou novo contrato com o PNAE para fornecimento alimentos à rede municipal de ensino. A iniciativa conecta a produção sustentável da Amazônia diretamente à alimentação escolar.
Mais do que um contrato comercial, trata-se do reconhecimento do trabalho dessas mulheres, que transformam saberes tradicionais e manejo responsável da floresta em oportunidades concretas de desenvolvimento local.
Ao incentivar cadeias produtivas sustentáveis e o acesso ao mercado institucional, o apoio do Florestas de Valor fortalece a agricultura familiar, promove a conservação da floresta e contribui para um modelo de desenvolvimento que alia inclusão social, segurança alimentar e respeito aos modos de vida amazônicos.



