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Financiamento climático: o capital está disponível, mas ainda precisa chegar à floresta

09/06/2026

Para transformar este cenário em restauração e conservação florestal, o Brasil precisa reduzir riscos, organizar dados, fortalecer instrumentos financeiros e colocar salvaguardas socioambientais no centro da implementação.  

 

Por Natali Silveira* e Lara Ribeiro de Carvalho** 

 

A Brazil Climate Investment Week 2026 deixou uma mensagem clara para quem acompanha a agenda de clima, floresta, carbono e restauração no Brasil: o debate sobre financiamento climático entrou em uma nova fase. Já não se trata apenas de afirmar que há recursos disponíveis ou de defender, em tese, que o país reúne condições únicas para liderar a economia da natureza. A pergunta central agora é outra: como fazer com que esse capital chegue, de forma segura, eficiente e justa, aos projetos, territórios e cadeias produtivas que precisam transformar compromissos em implementação? 

 

A resposta passa menos por discursos grandiosos e mais por uma engenharia complexa, que combina instrumentos financeiros adequados, dados confiáveis, tecnologia, coordenação entre diferentes atores e redução de riscos reais e percebidos. Em outras palavras, o dinheiro existe, mas ele não se movimenta sozinho. Para que ele se converta em floresta em pé, áreas restauradas, carbono mensurado com integridade e benefícios concretos para comunidades e trabalhadores, é preciso construir as condições de confiança que sustentam qualquer decisão de investimento. 

 

Essa foi uma das mensagens mais recorrentes no evento. Muito se falou sobre milhões e bilhões de dólares disponíveis para Soluções Baseadas na Natureza. No entanto, o desafio não está apenas em disponibilizar recursos, mas em garantir que esses investimentos cheguem aos territórios e alcancem iniciativas em diferentes estágios de maturidade, incluindo projetos em desenvolvimento, de menor escala e com forte potencial de impacto local. A presente fronteira dessa agenda está na capacidade de transformar compromissos financeiros em implementação efetiva. A tecnologia tem um papel importante nesse processo, especialmente para aumentar eficiência, transparência e capacidade de monitoramento, mas ainda existe uma lacuna entre as soluções desenvolvidas e sua aplicação prática nas operações em campo. Acelerar desembolsos, ampliar a escala das soluções e fortalecer um pipeline de projetos qualificados exige mais do que capital: exige estruturação técnica, governança, capacidade de execução e mecanismos que conectem investidores às realidades locais. 

 

Esse ponto é decisivo. Projetos de restauração, conservação, REDD+, agricultura regenerativa, sociobioeconomia - setor este onde defendemos situar-se o manejo florestal sustentável -, não obedecem à mesma lógica de maturação de outros ativos econômicos. Eles dependem de ciclos ecológicos, governança territorial, permanência, pactuação social, regularidade fundiária, qualidade técnica e capacidade de monitoramento ao longo do tempo. Quando instrumentos financeiros ignoram essas características, o risco aumenta. Quando incorporam a realidade dos territórios, tornam-se mais capazes de destravar capital e gerar resultados. 

Por isso, a agenda climática brasileira precisa avançar em uma frente essencial: desenvolver instrumentos financeiros que conversem com a natureza dos projetos de natureza. Isso significa combinar capital paciente, garantias, blended finance, mecanismos de mitigação de risco, contratos mais aderentes aos tempos da restauração e modelos de remuneração que reconheçam benefícios climáticos, sociais e ecológicos. Também significa compreender que integridade não é um custo adicional a ser evitado, mas uma condição para que o mercado cresça com credibilidade. 

 

Nos últimos anos, o mercado de carbono e as Soluções Baseadas na Natureza ganharam centralidade no debate climático. Ao mesmo tempo, cresceram as exigências de qualidade, rastreabilidade e demonstração de impacto. A maturidade do setor depende de sua capacidade de responder a essas exigências com sistemas robustos de monitoramento, relato e verificação. Dados e integridade não são acessórios técnicos. São a infraestrutura básica da confiança. 

 

Nesse sentido, o Brasil precisa investir mais em tecnologia aplicada à implementação. Sensoriamento remoto, tecnologias como o LiDAR, inteligência geoespacial, plataformas digitais, indicadores socioambientais, bases de dados integradas e metodologias adaptadas à realidade nacional podem reduzir custos, encurtar prazos, aumentar precisão e dar mais transparência aos resultados. Mas tecnologia, sozinha, não resolve. Ela precisa estar a serviço de uma governança que enxergue o carbono junto com biodiversidade, direitos, trabalho decente e participação social. 

 

Esse é um cuidado particularmente importante para a restauração florestal. Restaurar em escala não é apenas plantar árvores. É estruturar cadeias de sementes e mudas, formar mão de obra, garantir condições adequadas de trabalho, dialogar com proprietários e comunidades, planejar paisagens, monitorar resultados e assegurar que os benefícios sejam distribuídos de maneira justa. Se a restauração for tratada apenas como uma forma de remoção de carbono, perderemos sua potência econômica, social e ecológica. 

 

A experiência brasileira mostra que há gargalos importantes na mão de obra da restauração, incluindo capacitação, formalização, remuneração, saúde e segurança, logística de campo e permanência de trabalhadores na atividade. Esses temas precisam fazer parte da conversa sobre financiamento climático. Não haverá restauração em escala justa, com precarização do trabalho. Tampouco haverá integridade socioambiental se os projetos forem avaliados apenas pela quantidade de carbono estimada, sem considerar as condições em que esse carbono é gerado. 

 

Isso vale para projetos de carbono florestal, REDD+, restauração e outras iniciativas climáticas podem contribuir para a conservação e para a transição econômica de territórios, mas apenas quando estruturadas com salvaguardas robustas, respeito a direitos, transparência na repartição de benefícios, consulta e participação social, avaliação de riscos e verificação independente. A credibilidade do mercado depende justamente da capacidade de demonstrar que os créditos e ativos ambientais representam benefícios reais, adicionais, duradouros e socialmente legítimos. 

 

Esse ponto se torna ainda mais relevante em um momento em que o Brasil avança na regulamentação do mercado de carbono e amplia a discussão sobre sua inserção na economia global de baixo carbono. O mercado regulado pode criar previsibilidade e demanda, enquanto o mercado voluntário segue como espaço importante para inovação e financiamento de soluções florestais. Mas ambos dependem de regras claras, dados consistentes, MRV confiável e critérios de integridade que evitem a transformação da agenda climática em uma disputa de narrativas sem lastro em resultados. 

 

A Brazil Climate Investment Week também mostrou que o capital está olhando para outras frentes estratégicas da transição, como minerais críticos, terras raras, tecnologia, inteligência artificial e novas cadeias industriais. Esse movimento é compreensível. A descarbonização global exige materiais, infraestrutura e inovação. Mas, para o Brasil, há uma reflexão necessária: a transição não pode repetir a velha lógica de exploração de recursos naturais com baixa governança socioambiental. Se o país deseja liderar a economia verde, precisa fazê-lo sem separar competitividade de integridade. 

 

O interesse por minerais críticos, por exemplo, reforça uma tendência mais ampla: os mercados estão buscando posições em ativos estratégicos para a transição. A floresta, a biodiversidade, o carbono, a água e a restauração também são ativos estratégicos. A diferença é que, no caso das Soluções Baseadas na Natureza, o valor depende diretamente da manutenção de sistemas vivos, da confiança pública e da relação com territórios. Isso exige uma arquitetura de mercado mais sofisticada do que a simples conexão entre oferta e demanda. 

 

Daí a importância dos arranjos multissetoriais. O evento evidenciou a necessidade de coordenação entre investidores, empresas, organizações técnicas, desenvolvedores de projetos, governos, academia, organizações da sociedade civil e atores territoriais. Plataformas de matchmaking, movimentos pré-competitivos, iniciativas de curadoria de projetos e ambientes de conexão entre oferta e demanda podem cumprir um papel relevante. Mas devem ir além da vitrine. Precisam incorporar critérios técnicos, socioambientais e de carbono capazes de diferenciar projetos maduros, reduzir assimetria de informação e orientar capital para iniciativas com maior potencial de impacto. 

 

Esse é um campo em que organizações independentes, com experiência em auditoria, verificação, salvaguardas e atuação territorial, podem contribuir de maneira decisiva. A agenda de “impact advisory”, ainda pouco desenvolvida no Brasil, pode ajudar investidores e empresas a compreenderem riscos, avaliar integridade, selecionar projetos, acompanhar desempenho e evitar decisões baseadas apenas em promessas. Em um mercado que se expande rapidamente, a curadoria técnica e socioambiental será tão importante quanto a disponibilidade de recursos. 

 

O país não parte do zero. Há experiências acumuladas em restauração, certificação, manejo florestal, verificação de carbono, monitoramento territorial, cadeias da sociobiodiversidade e construção de salvaguardas. O desafio é conectar essas experiências a uma estratégia de escala. Isso requer infraestrutura de dados, padronização mínima de indicadores, transparência, formação de capacidades locais e instrumentos financeiros desenhados para a realidade brasileira. 

 

Também requer uma mudança de perspectiva. Não basta perguntar quanto carbono um projeto pode gerar. É preciso perguntar quem implementa, em que condições, com quais direitos assegurados, com que participação local, com quais benefícios para a biodiversidade, com que permanência e com que capacidade de monitorar resultados ao longo dos anos. Essas perguntas não atrasam o mercado. Elas protegem o mercado de sua própria pressa. 

 

A pressa, aliás, é um dos maiores riscos desta fase. A emergência climática exige velocidade, mas velocidade sem integridade pode produzir ativos frágeis, conflitos territoriais, perda de confiança e danos reputacionais para investidores, empresas e desenvolvedores. A implementação precisa ser rápida, mas também precisa ser responsável. Escala sem governança não é solução climática; é risco transferido para o futuro. 

 

O Brasil tem uma janela rara. Pode se consolidar como liderança global em Soluções Baseadas na Natureza, mercado de carbono, restauração e bioeconomia. Para isso, precisa superar a fragmentação, organizar melhor seus dados, fortalecer tecnologias de monitoramento, qualificar projetos e criar instrumentos financeiros capazes de dialogar com a complexidade dos territórios. Precisa, sobretudo, compreender que a integridade socioambiental não é uma exigência externa imposta ao mercado. É o lastro de um país que quer transformar natureza em desenvolvimento sem destruir a base que sustenta esse valor. 

 

A Brazil Climate Investment Week mostrou que há capital interessado. Agora, o trabalho mais importante é fazer com que esse capital encontre bons projetos, bons projetos encontrem condições de implementação e a implementação produza resultados climáticos, sociais e ambientais verificáveis. Esse é o caminho para que o financiamento climático deixe de ser promessa e passe a ser transformação concreta. 

 

Natali Silveira* é engenheira ambiental e coordenadora de projetos na área de Florestas e Restauração no Imaflora. 

Lara Ribeiro de Carvalho** é engenheira florestal, e mestre em Recursos Genéticos Vegetais e coordenadora na área de Florestas e Restauração no Imaflora.

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